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terça-feira, 29 de março de 2011

O Vale de Baca




“Bem-aventurado o homem cuja força está em Ti… o qual, passando pelo vale árido, faz dele um manancial; de bênçãos o cobre a primeira chuva.” (Sl 84.4-6).


Nos tempos do Velho Testamento, os israelitas piedosos faziam peregrinações regulares a Sião, a mesma Jerusalém, para adorar a Deus no templo e celebrar festas religiosas. Esta era a alegria maior de suas vidas; eles amavam os tabernáculos de Deus, suspiravam pelos átrios do Senhor, exultavam pelo Deus vivo! (Salmo 84.1-4).

Aquelas peregrinações eram muito difíceis em certos trechos, mas eles as enfrentavam com alegria; renovavam suas forças antegozando o momento em que apareceriam diante de Deus em Sião (v.7).


O trecho mais difícil da viagem, incontornável para a maioria deles, era o Vale de Baca (Versão Revista e Corrigida), também chamado Vale das Lamentações (Septuaginta), Vale de Lágrimas (Vulgata Latina), Vale das Balsameiras (Bíblia de Jerusalém), e Vale Árido (Versão Revista e Atualizada).


“Baca” é uma palavra hebraica que significa “choro”, “lágrima”. As balsameiras são plantas que destilam, gotejam ou “choram” o bálsamo, uma resina de odor tão agradável que a palavra “bálsamo” veio a significar, figurativamente, “alívio”, “conforto”, “lenitivo”.

As peregrinações de Israel são um tipo ou símbolo da peregrinação dos cristãos neste mundo. Jesus disse aos Seus discípulos: “Vós não sois do mundo…” (João 15.19).

Paulo escreveu aos filipenses: “A nossa pátria está nos céus…” (Filipenses 3.20). Pedro dirigiu suas epístolas “aos eleitos… peregrinos e forasteiros…” (I Pedro 1.1; 2.11).


Os israelitas faziam suas peregrinações a Jerusalém a fim de adorar a Deus no templo; nós, os cristãos, estamos a caminho da chamada Jerusalém Celestial onde haveremos de adorar e servir ao Deus Triúno, em tabernáculos eternos. Peregrinando aqui, temos passado, sim, por lugares de indizível beleza; o Bom Pastor nos tem conduzido por “pastos verdejantes”, e nos tem levado “para junto das águas de descanso” (Salmo 23.1,2); anjos têm vindo do céu à terra somente para nos proteger (Salmo 34.7); temos vivido experiências agradabilíssimas. Entretanto, não há por que negar que alguns trechos do caminho têm sido muito difíceis. Não temos podido evitar o “Vale de Baca” ou “Vale de Lágrimas”.


Gostaríamos que o Salmo Pastoril (Salmo 23) falasse somente de “pastos verdejantes”, “águas tranqüilas” e “mesas postas”, e não mencionasse o “vale da sombra e da morte” (v.4). Mas a referência está ali… Se você, irmão (ã) está passando pelo “Vale de Baca”, quero lembrar-lhe que o seu equivalente físico na Palestina recebeu este nome não porque era árido, difícil, sofrido, mas por causa das plantas que cresciam ali e “choravam” bálsamo. Este vale recende a bálsamo!


O VALE DE BACA É MUITO FREQÜENTADO.


Os israelitas de quase toda a Palestina tinham que passar pelo Vale de Baca, quando a caminho de Jerusalém. A topografia os obrigava a isto. Na experiência cristã não é diferente. Alguns são levados, como que “por via aérea”, do berço para a glória da Jerusalém Celestial, e escapam do Vale de Lágrimas; mas todos os outros têm que passar por ele.

Parece que Moisés passou por este vale repetidas vezes. Idoso, sofrido e enfadado, ele orou: “Volta-te, Senhor! Até quando? Tem compaixão dos teus servos… Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido, por tantos anos quantos suportamos a adversidade.” (Salmo 90.13,14).


Muitas são as adversidades que nos afligem e nos fazem chorar no transcurso desta nossa peregrinação terrena: desapontamentos, desastres, calamidades, perdas, escassez, enfermidades, morte. De um modo ou de outro, cedo ou tarde, mais ou menos vezes, todos passamos pelo vale.


O VALE DE BACA É INDESEJÁVEL.


• a) É árido. Não tem rios de alegria; os poços, cavados por alguns dos peregrinos que nos antecederam ou por nós mesmos são, muitas vezes, “cisternas rotas que não retêm as águas” (Jeremias 2.13).


• b) É pedregoso. Os peregrinos conseguem remover as pedras menores, não as grandes; a caminhada é muito sofrida; muitos tropeçam e caem.


• c) É escuro. As trilhas serpenteiam entre rochas de angústia e montanhas de pecado; o Sol da Justiça esconde-se por trás destas e o vale fica muito sombrio.


• d) É extenso. Os peregrinos sabem que Sião está à frente, mas não podem vê-la; a caminhada parece não ter fim. Muitos ficam desencorajados.


• e) É infestado. Há espíritos maus neste vale. Eles tentam; fazem insinuações malditas e sugestões blasfemas: armam ciladas, lançam os “dardos inflamados do maligno” (Efésios 6.11,16).


O VALE DE BACA É PROVEITOSO.


Torna-nos mais fortes, mais humildes, mais dependentes de Deus, enfim, mais crentes. A companhia e as necessidades dos outros peregrinos ensinam-nos a pensar mais neles, e a “levar as cargas uns dos outros” (Gálatas 6.2).


O autor do Salmo 119 aprendeu muito no Vale de Baca, razão porque orou: “Antes de ser afligido andava errado, mas agora guardo a Tua Palavra… Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os Teus decretos.” (vs. 67,71).

Paulo passou por este vale diversas vezes, e testemunhou: “… aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado, como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias já tenho experiência, tanto de fartura como de fome, assim de abundância, como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece.” (Filipenses 4.11-13).


QUE FAZER NO VALE DE BACA?


O texto diz: “… passando pelo vale árido, faz dele um manancial…” Como? Cavando poços. Os peregrinos orientais, quando passam por regiões áridas, sem água, cavam poços e, deste modo, conseguem água para si e para os seus animais. Assim fizeram os patriarcas de Israel, no passado (Gênesis 26.18ss; Jo 4.12).


Isto nos ensina três coisas: Há conforto e uma saída na tribulação. Nossa tendência, quando passamos por uma provação, é desesperar e desistir. Hagar, a escrava egípcia de Sara, mulher de Abraão, quando expulsa de casa, com o filho Ismael, passou por uma tremenda provação: andou errante pelo deserto de Berseba, até que lhe acabou a água do odre. Que fez, então? “… colocou ela o menino debaixo de um dos arbustos, e afastando-se, foi sentar-se defronte, à distância… porque dizia: Assim não verei morrer o menino; e, sentando-se em frente dele, levantou a voz e chorou. Deus, porém… lhe disse: Ergue-te… Abrindo-lhe Deus os olhos, viu ela um poço de água…” (Gênesis 21.15-19).


O poço estava ali, a salvação estava à mão, mas Hagar, pessimista, desesperada, incrédula, não o percebeu. Nos desertos e vales áridos da vida há sempre algum poço cheio de conforto e salvação. Quando não, cabe-nos cavar um. O conforto e a saída podem custar esforço. Se o poço não está cavado, temos que cavá-lo nós mesmos. E isto requer esforço, muito esforço. Mas vale a pena. É melhor do que sentar para chorar e esperar o fim. Muito da miséria e completa derrota de muitos cristãos deve-se à sua inação.


Se quisermos saciar a nossa sede de conforto, de alegria, de paz, e encontrar saída no Vale de Baca, temos que olhar à volta e encontrar os poços que outros já cavaram, ou então cavar nós mesmos os nossos poços… na Palavra de Deus, na oração, na adoração, no aconselhamento cristão. O conforto e a saída encontrados por um servirão a outros. Os poços abertos pelos peregrinos de hoje servirão aos peregrinos de amanhã. Os samaritanos e o próprio Jesus serviram-se da “fonte de Jacó” (João 4.6,12).


No sentido figurado que estamos considerando, os Salmos são fontes de conforto que Davi e outros cavaram quando estiveram no Vale de Baca. O conhecido livro “Mananciais no Deserto” contém os testemunhos daqueles que beberam destas fontes tão antigas, e, por sua vez, cavaram outros poços. Estas são as fontes e estes são os poços que Deus nos aponta quando não temos forças para cavar e, como Hagar, simplesmente nos assentamos para chorar e esperar o fim.


Às vezes é preciso desentulhar os poços entulhados por inimigos, por maus intérpretes e por maus conselheiros (Gênesis 26.15,18); outras vezes, é necessário cavar poços novos (Gênesis 26.22).


CAVADO O POÇO, ESPERE PELA CHUVA.


Nosso texto diz ainda: “… de bênção o cobre a primeira chuva.” (Salmo 84.6). Isto estabelece uma distinção muito importante para todas estas considerações: os poços que cavamos no Vale de Baca geralmente são do tipo reservatório. Nós os cavamos, mas eles só se encherão quando Deus fizer chover. Tais poços não se enchem de baixo para cima, mas de cima para baixo. Nós fazemos a nossa parte, Deus faz a dEle. Cavar poços, abrir reservatórios é um meio; não um fim.


A bênção não está no meio, no reservatório, mas no Deus dos meios que enche o reservatório com Seu conforto, com Sua paz, com Sua alegria, com Sua salvação, com Seu poder, com Sua presença.


“Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei, porque o Senhor Deus é a minha força e o meu cântico; Ele se tornou a minha salvação. Vós com alegria tirareis água das fontes da salvação.” (Isaías 12.2,3).


Vamos concluir lembrando mais uma vez o Salmo 23:


“O senhor é o meu pastor: nada me faltará… Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo: a Tua vara e o Teu cajado me consolam.” (vs.1,4).


Deus está conosco no Vale de Baca, por isso recende a bálsamo! Há poços cheios ali. Ele no-los mostrará. Quando não, nos ajudará a cavar nossos próprios poços, e prontamente os encherá de bênçãos.


Por Éber M. Lenz César

Um comentário:

  1. José Simão de Souza Castro26 de janeiro de 2013 09:05

    Verdadeiramente esta passagem nos faz lembrar que em meio às lutas, podemos descansar e confiar nos Deus que renova as nossas forças e nos alivia com sua chuva de bençãos. O Apóstolo Paulo disse que vivemos por fé, e não por vista. Que em nossa caminhada cristã, possamos olhar à frente, não vendo somente os vales de Baca, mas principalmente, o mel e leite da Nova Canaã, onde seremos saciados e confortados eternamente pelo Senhor Nosso Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo.

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