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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Igreja de Laodicéia


Encontro-me ás vezes nas igrejas nos dias de hoje, e olho para elas e todas suas adaptações no que se refere à infra-estrutura. Muito se gasta em prédio, aconchego e beleza do templo. Porém, não é só isso que vejo acontecer, mas, também, olho para a realidade espiritual e encontro miserabilidade nas vidas em suas tentativas em buscar a Deus. Vejo as pessoas em não se preocuparem com suas vidas de santidade. E os cultos estão cada vez mais mortos.

Com tudo isso que acontece, eu paro para refletir sobre a situação da igreja de hoje em correlação com a igreja de Laodicéia. Acredito que das sete igrejas do Apocalipse, as quais foram cartas enviadas, a mais contemporânea é a igreja de Laodicéia. De todas essas, a igreja de Laodicéia é a que mais se aproxima de nossa realidade. Uma igreja que abandonou Jesus, o Cristo como centro da doutrina e da prática de vida, uma igreja que viveu a apostasia e se enquadrou no ambiente que vivia.
Sendo assim, em ver essa proximidade de nossas igrejas nos dias de hoje e a igreja de Laodicéia, resolvi fazer um artigo sobre ela.

PANO DE FUNDO DE LAODICÉIA:
É importante conhecermos como era a cidade de Laodicéia antes de entendermos o texto, pois o texto usa alguns detalhes que traz a luz dos fatos que ocorriam em Laodicéia.

É bom deixar relatado que havia três cidades com o nome de “Laodicéia” na antiguidade, e não podemos confundi-las, a saber: 1º Laodicéia ad Maré, que hoje é a atual Lataquia, a qual é o principal porto do mar da Síria; 2º Laodicéia Combusta, que é hoje a atual Ladique na Turquia; e 3º A Laodicéia do Lico (veremos a seguir porque tinha esse nome) que é a do Novo Testamento, a qual estará em analise, pois é a única que tem interesse bíblico. Veremos seus aspectos geográfico, econômico e histórico.

Aspecto geográfico:
Essa cidade era conhecida como Laodicéia ad Lycum, que nos dias atuais é a Pamucale, um lugar desértico. Ficava perto da cidade de Denizli, que nos dias atuais é a Turquia ocidental. Laodicéia encontrava-se cerca de 60 km a sudeste da Filadélfia, a 10 km ao sul de Hierápolis e a 16 km a oeste de Colossos; se localizava junto ao rio Lico e no fértil Vale do Licos, por essa razão tinha o nome de “Laodicéia do Lico”. E junto com Hierápoles e Colossos se formava uma totalidade, se tornando um grande eixo político-judicial do continente.

Outro ponto da sua localização era bom para o seu desenvolvimento e crescimento próspero, que era em um cruzamento de estradas consideradas importantes na Ásia Menor, a saber: 1º Estrada que ia para os portos de Mileto e Éfeso, cerca de 160 km; 2º A mesma estrada para o oriente levava ao Planalto central, e de lá para Síria; e 3º Existia outra estrada que conduzia para o Norte, que ia para a principal capital que era Pérgamo, e, também, para o Sul até as costas de Ataléia.

Ela era agrupada em uma área de 25 cinco aldeias no máximo, sendo-a cidade-mãe nesta autêntica metrópole, como mostra a arqueologia. Não só isso que arqueologia descobriu, mas, também, relata que nela havia uma pista de corrida e três teatros (um deles tem 136 metros de diâmetro). Muitas outras ruínas e itens foram descobertos que confirmam a sua riqueza.

Aspecto Econômico:
Precedendo está parte foi mostrado o seu aspecto geográfico, pois como já dito à cima a sua localização contribuía para seu crescimento financeiro e desenvolvimento. As estradas que foram relatadas fizeram com que a cidade se tornasse um grande centro bancário e comercial. De todos os lugares vinham homens de negócio para buscar financiamento para seus projetos e empreendimentos, pois possuía bancos.

Indústrias foram implantadas nela, dois tipos de indústria se destacavam. Havia a indústria de lã que fabricava roupas e tapetes de cor preta que ditava a moda, e a de medicina que era especializada em oftalmologia, que era feito pelo pó da Frigia, porém, não era conhecida como uma indústria, mas, sim, como uma escola de medicina. Também, por haver fontes minerais térmicas a tornava um centro terapêutico.

Depois dos tempos bíblicos sua prosperidade aumentou, e até antes desses tempos, na época dos primeiros imperadores romanos, ela já era famosa por sua importância e riqueza. Sua riqueza era tão grande que nos anos 60 D.C, ela foi vitima de um terremoto que quase a destruiu completamente (era uma cidade sujeita a constantes terremotos). Com sua própria riqueza ela se reconstruiu, evitando e renegando a ajuda do governo romano. E não somente para ela, mas, também, contribuiu para o levantamento de algumas cidades adjacentes que também foram atingidas pelo terremoto.

Aspecto Histórico:
A cidade de Laodicéia foi fundada no século III A.C. Ela foi ampliada por Selêucida Antíoco II, e seu nome foi trocada em homenagem a sua mulher “Laodice”, pois antes a cidade se chamava “Diosópolis”, a cidade de Zeus. Só para deixar de passagem o nome “Laodicéia” significa “Justiça do Povo” que é da palavra grega “laodikeiai”, denotando talvez um governo democrático, ou também, pode ser algum juiz do povo. No entanto, quando nós desfragmentamos a palavra dá a idéia: “os costumes dos leigos ou as opiniões do povo comum.”1. Pois, “laos” significa povo em comum/leigos e “dicéia” significa costumes/opiniões do povo. Com isso define a tal idéia:

“Esta Igreja que queria ganhar o mundo veio a tornar-se mundana e cheia de idéias e opiniões humanas. Todos opinavam e decidiam o que seria espiritual para a Igreja. Entretanto, nem sempre a voz do povo é a voz de Deus - a Igreja virou um caos.” 2

No século IV D.C, essa cidade era a sede episcopal da Frigia. Contudo, ela foi destruída pelas sangrentas guerras travadas pelos islamitas da idade média. Há ruínas chamadas de “Eski Hissar”, palavra Turca que significa “Castelo Antigo”.
Falando agora da historicidade Cristã na cidade, sabemos que Paulo esteve lá em sua terceira viagem missionária e provavelmente foi ele que deu origem à igreja dessa cidade, pela pregação da palavra. Conforme ensina Cl 4.13-16, sabemos que Paulo tem grande zelo pela igreja de Laodicéia e que ele escreveu uma epístola para aquela igreja. Há os que palpitem que a epístola escrita para igreja de Laodicéia seja a epístola aos Efésios, no entanto, isso não passa de conjectura.

O TEXTO (Ap 3. 14 – 22):

O Remetente (VS/14b): Nós sabemos que quem enviou essa carta para a igreja de Laodicéia e a escreveu foi João, o mesmo autor de Apocalipse. Todavia, ele escrevera essa carta, mas não foi ele que elaborou o conteúdo da mesma, pois quem elaborou seu conteúdo foi o próprio Jesus. Mas, como sabemos que foi ele? Pela forma que o VS/14b mostra. Podemos dizer que isto é um circunlóquio de Jesus, para entendermos melhor veremos cada item:

Ø O Amém: Em Is 65.16 aparece falando sobre o Deus da verdade. A palavra no grego para “verdade” e para “amém” é a mesma: “amém”, que é a palavra que aparece no texto. Ou seja, esse “amém” seria uma tipificação do “Deus da verdade” conforme aparece em Isaias, porém, aqui indica a Jesus, o Cristo, que também é o “Deus da Verdade”. Desta forma implica que as palavras de Jesus são verazes e sinceras, assim como o próprio Jesus é.

Ø Testemunha fiel e verdadeira: Próprio João escrevera que Jesus é fiel testemunha (1.5). E o próprio Cristo se apresenta como Verdadeiro à igreja de Filadélfia (3.7). Aqui há um contraste com a lamentável condição que a igreja de Laodicéia estava vivendo, enquanto Jesus era uma testemunha fiel e verdadeira, a igreja de Laodicéia não testemunhava verdadeiramente e fielmente. Jesus nunca escondeu e nem esconderá a verdade, ele não acrescentará nada do que vê, e, também, não esconderá nada.

Ø O principio da criação de Deus: Não podemos partir para as heresias como faz as Testemunhas de Jeová, que dizem que Jesus é um ser criado e foi o primeiro a ser criado por Deus. Esse texto não sustenta tal teologia. Aqui se refere a Jesus como base de toda Criação de Deus, podemos confirmar isso através dos textos (Jo 1.1-3; Cl 1.15-17). Portanto, essa passagem deve ser interpretada a luz dessas outras passagens. È interessante salientar de que em Ap 21.6, aparece falando que Jesus é o “principio”. Essa palavra no grego é “arché”, de onde vem a palavra “arquiteto”, ou seja, Jesus é o arquiteto da criação de Deus.

As reprovações (VS/15-17): Talvez nesse momento em que a carta estava começando a ser lida para igreja, houve uma expectativa de elogios que viriam, por causa da sua tamanha riqueza. Entretanto, nenhum elogio foi direcionado a essa igreja, mas, sim, reprovações. No VS/15 e 16 vemos que ela era uma igreja morna. Por que será que foi usada essa terminologia? Uns dos problemas que havia em Laodicéia, e considerado o maior, era sua escassez de água. Ela tinha um arqueduto de 6 ou 7 milhas construído, para trazer águas de fora para o suprimento da cidade. Vinham de Colossos águas frias e de Hierápoles vinham águas quentes, boas para tratamentos e cura de muitas doenças. Porém, quando as águas de Hierápoles chegavam à cidade, elas não estavam mais quentes, mas estavam mornas. Desta forma os cidadãos da cidade sabiam o quão era desagradável isso. Quando na carta foi usada essa analogia dá mornidão, o público que estava escutando a leitura sabia o quão desagradável eles estavam sendo para Deus. Não eram nem frios, uma analogia de alguém que espiritualmente está em uma situação de indiferença as coisas de Deus; e não eram quente, uma analogia de alguém que vibra nas coisas de Deus. Mas eram mornos, uma analogia para alguém que desagrada a Deus, pois se diz Cristão e ativo na igreja, mas não busca a Deus como deveria, e nem vive uma vida Cristã como deveria, porém, se envolve no meio do mundo e de suas vontades se adaptando ao ambiente em que vive, da mesma forma que as águas se adaptavam ao ambiente de Laodicéia.

Continuando essa parte vemos que no VS/17, eles achavam que estavam enriquecidos e de nada sentiam falta, só porque viviam no meio da riqueza e do bem-estar. Refletia na vida deles o comportamento da comunidade em que viviam. Desta forma mostrava o orgulho desta igreja, acredito que umas das coisas mais repugnantes aos olhos de Deus seja a questão do orgulho, o mesmo que levou Lúcifer a se rebelar contra Deus. Sentiam-se auto-satisfação e orgulho pela vida que levavam. Todavia, não era isso que Jesus achava deles. A mentalidade de Jesus sobre essa igreja era totalmente diferente do que eles achavam. Para Jesus eles eram desgraçados, ou seja, aqueles que não conheciam, não viviam, não experimentavam da maravilhosa graça de Deus e assim eram infelizes, o oposto do que pensavam que eram. Eles também foram chamados de miseráveis, ou seja, eram dignos de compaixão, pois em sua vivência não havia abundância, mas, sim, miserabilidade.

Essas próximas três criticas em que tiveram é um contraponto com a vida que eles pensavam que tinham. Pensavam que eram ricos e cheios de riqueza por causa do ambiente em que viviam e de seus bancos, contudo, eram pobres, não tinham a riqueza que precisavam. Orgulhavam-se, pois tinham a escola de medicina com especialidade em oftalmologia, fabricando remédios pelos pós da frigia, no entanto, a verdade é que eles estavam cegos diante as coisas espirituais, ou seja, fabricavam remédios para curar os outros, mas eles mesmos não se tratavam. E por último, se destacavam em sua indústria de roupas, produzindo vestimentas para os outros, todavia, eles mesmos não se vestiam, viviam numa nudez espiritual sem se preocuparem em se vestir com a verdadeira veste que precisavam.

E agora, após terem ouvido tudo isso, como será que podiam adquirir tudo isso que pensavam que tinham? Como podem se tornar ricos? Como podem enxergar? Como podem se cobrir? Já que têm todas essas qualidades na cidade, mas continuam vivendo ao contrário do que deveriam. Bem, na continuação do texto vemos a solução.

O conselho (VS/18-19): Já que todos os atributos que Laodicéia tinha, foi provado que espiritualmente era um antônimo, Jesus aconselha de como eles podem adquirir esse atributos espirituais. Para que se tornem ricos, eles precisam comprar “ouro provado no fogo”; aqui dá a idéia de ser refinado e purificado pelo fogo esse ouro que devem comprar. Ou seja, desse ouro é retirado toda impureza que pode ter. As impurezas que geralmente tem nas riquezas terrena. Portanto, eles deviam buscar a riqueza sem impureza, em Cristo. No decorrer do texto vemos também que eles são orientados a comprar “vestes brancas”, para que eles pudessem se vestir. As vestes brancas aqui entram em contraste com as lãs pretas que eles fabricavam na cidade. E não só isso, mas, também, reforça o sentido da pureza que eles precisavam adquirir, pois o branco significa pureza, e, também, se refere à justiça dos santos (Ap 19.8b). É uma admoestação para que se entreguem novamente a Cristo para obter a pureza e a justiça dos santos. E terminando o VS/18, a mais uma coisa a qual eles têm que comprar que é o colírio para os seus olhos, tornando-se um paradoxo para uma cidade de medicina oftalmologista. Pensavam que tinham o segredo para cura dos olhos, todavia, não sabiam que suas cegueiras eram piores e que só esse colírio adquirido em Cristo poderia trazer a visão que eles precisavam, a saber, a visão espiritual, e isso após de terem ungido seus olhos com esse colírio. Lembrando que a unção é um ato de separar e consagrar, ou seja, eles deveriam separar e consagrar seus olhos para as coisas espirituais. Muito interessante a definição do evangelho que podemos encontrar aqui, a saber:

“Riqueza divina para nossa pobreza espiritual; veste branca de justiça para nossa pecaminosidade. Visão espiritual para nossa cegueira” 3

Continuando esse texto vemos que Jesus dá mais conselhos. O próximo conselho é “arrepende-te”. No original essa palavra está no aoristo (que é o nosso pretérito), desta forma exigindo uma ação imediata que eles deveriam tomar. Mas antes disso há outro conselho “se, pois, zeloso”, essa frase está no imperativo presente, no original. Ou seja, eles deveriam ter uma constância em seu zelo pelas coisas referentes ao reino.

Precedendo esses dois conselhos últimos conselho, Jesus mostra um ensinamento, a saber: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo”. Quando há um castigo da parte de Deus, deve ser entendido dá mesma forma quando há um castigo da parte de um pai para o filho. Não é por maldade o castigo, mas para correção e principalmente amor, conforme já ensina Hb 12.5-11. O interessante aqui no texto, é que a palavra para amor não é o costumeiro “agapao”, mas, sim, “fphileo”, ou seja, o amor de Jesus por eles não é só o desejo de amar, mas é algo maior e mais intenso. Um amor de sentimentos, afeições e emoções.

A promessa (20-21): Esses dois versículos contêm uma promessa. No entanto, eles precisam tomar a iniciativa para que as promessas se cumpram. Vamos ver as promessas: “entrarei em sua casa, e cearei com ele, e ele comigo” e “ao que vencer lhe concederei que assente comigo no meu trono”. Vamos por parte. Para a primeira promessa se cumpra eles precisavam tomar o proceder de abrir a porta quando Jesus bate. Ele toma a iniciativa de ir ao encontro, e para que possam unir-se com Ele e desfrutar da sua doce comunhão precisam abrir a porta. É interessante esse versículo, pois o assentar a mesa naquela cultura é algo sério, é algo que só os íntimos e chegados poderiam desfrutar. Não é simplesmente o comer, mas é a idéia de íntima comunhão, ou seja, eles iriam desfrutar dessa íntima comunhão com Cristo, a comunhão de solidarizar, de conversar, de ouvir e ser ouvido e de receber encorajamento.

Para segunda promessa, é simples ver o que eles precisam fazer para herdá-la. Precisam tomar a iniciativa de lutar e serem perseverantes em suas lutas, pois a vitória não vem sem perseverança e luta. Essa promessa ecoa a promessa que Jesus fez aos seus apóstolos em Mt 19.28 e Lc 22.29-30. A totalidade da promessa é a mesma, porém a intensidade é diferente.
Quando a primeira promessa no texto fala em uma atitude que acontecerá na hora e futuramente, a segunda só se refere a uma vida futura.

A exortação final: Como foi dito às outras 6 igrejas, para essa não foi diferente: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Ouvir aqui não é só escutar as palavras, mas, também, é obedecer e procurar mudar o seus procederes errôneos, os quais têm vivido.

CONCLUSÃO:
Essa igreja não incorporava nenhum bem que havia nas outras. Não tinha o calor espiritual de Éfesos, não tinha o temor de Esmirna, não tinha a fidelidade ao nome de Cristo e a fé de Pérgamo, não tinha a fé e as obras de Tiatira, não tinha um remanescente imaculado de Sardes e não tinha a observância da palavra de Deus e os labores de Filadélfia. 4
Pelo ao contrário, essa igreja só apresentava males diante de Deus. Uma igreja que não procurava bem estar espiritual, mas só físico. Infelizmente essa era sua realidade, uma realidade que vemos mais uma vez repetir nos dias de hoje.

Através dessa carta, acredito que as igrejas de hoje deveriam parar para refletir sobre suas vidas e ver se têm se relacionado com a igreja de Laodicéia, com tais perguntas: Onde estão minhas fontes de riqueza? Como tem sido nossa vida de santidade? Será que estamos agradando a Deus em nossa forma de ser igreja? Qual tem sido o valor de nossas vidas espirituais? Quando lemos a carta aos laodicenses vemos alguma proximidade com nossa igreja?


Por Maurício Montagnero

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